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O Huguinho de Penedo e o Amarelinho da Cinelândia

huguinho-amarelinhoNa quinta-feira anterior ao dia dos pais nós arrumamos mala e cuia e botamos pés na estrada, assim resolvido na hora, rumo ao Rio de Janeiro. O Rio fica a 170 quilômetros daqui do nosso mato, e foram 170 quilômetros de olho no Huguinho, que vinha de três dias de febre, mas melhorando (a febre diminuindo e espaçando). O Mafuá ficou com uma moça com quem nunca tinha ficado. Quando manobramos o carro, depois de deixá-lo, em Resende, ele já tentava cruzar nas pernas da pobre. Ir ao Rio na correria, Huguinho doentinho no inverno, Mafuá tentando cruzar em quem aparece. Nada de novo no front.

Mas foi uma ida ao Rio muito especial. Fazia muito tempo que não entrávamos no apartamento da Priscila em Botafogo. Estava alugado há mais de um ano, e a pessoa há poucas semanas avisou que iria entregar, porque foi transferida pela empresa para outro canto. Chegamos na quinta à tarde, comemos uma bobagem em um dos muitos bares descoladinhos que pipocaram nas redondezas nos últimos anos, e no fim do dia eu fui para um compromisso na Associação Brasileira de Imprensa. Priscila e Huguinho ficaram de farra no apê. Ele estava melhor. Desde a manhã cedinho sem mais febre. Quando cheguei, lá pela nove da noite, apareceu um 37,2. Demos meia dose de dipirona, na certeza de que no outro dia já teria passado tudo.

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Por que aqui em casa não teve presente de Dia das Crianças?

Fonte: Agência Brasil

Fonte: Agência Brasil

Na noite de terça-feira, véspera do Dia das Crianças, deparei-me com um artigo publicado no ótimo site Justificando em que o autor ousou fazer algo cada vez mais difícil de se ver no Brasil: dar às coisas os nomes que elas têm. No artigo, o juiz do trabalho Renato da Fonseca Janon chama a atenção para a imensa hipocrisia que é comemorar com tanto gozo, júbilo e deleitação o chamado Dia das Crianças em um país que pede a redução da maioridade penal – um país que parece querer ver crianças pobres atrás das grades por puro gozo, júbilo e deleitação, tendo em vista que apenas uma parcela ínfima de crimes graves no Brasil é cometida por menores de 18 anos de idade.

Renato da Fonseca Janon lembrou ainda que, segundo a Fundação Abrinq, existem mais de 3,3 milhões de crianças e adolescentes (entre 5 e 17 anos) em situação de trabalho infantil no Brasil. Ainda segundo dados recentes da Abrinq, das crianças brasileiras com idades entre 0 e 14 anos, 44% encontram-se em situação de pobreza e 17% na condição de extrema pobreza.

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Huguinho e o meu primogênito

huguinho-mafuaMoramos aqui em Penedo há pouco mais de seis anos, e tem pouco mais de seis anos de idade o Mafuá, nosso grande companheiro dessa vida diferente que levamos aqui, com meno$, porém com mais qualidade de vida, liberdade, passarinhos coloridos e conversas fortuitas nas calçadas, aqui onde nem sinal de trânsito tem, ainda que tenha engarrafamento nos fins de semana mais concorridos dessa temporada de inverno.

Mas o Mafuá, um labrador americano de 40 quilos, tipo o Marley, é mais que isso: é um filho. Um filho diferente, é verdade, mas um filho. Costumo me referir a ele, ao Mafuá, como meu primogênito, para estranheza de alguns. Como do meu sogro. Quando ele vem aqui, ou quando o Mafuá vai lá, na casa dele, eu sempre digo: “Mafinha, diz oi pro vovô”. E o meu sogro sempre emenda de pronto: “Vovô, não! Não tenho neto cachorro!”. Sei, porém, que é um tanto da boca pra fora, de farra. Tal rejeição não combinaria com seu imenso coração.

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A ‘estranha’ biblioteca do Huguinho

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Foi o teste de gravidez da Priscila dar positivo, e no dia seguinte estava feita a primeira encomenda já pensando no bebê: uma caixa com os maiores clássicos infanto-juvenis de Monteiro Lobato, que vem, claro, com Reinações de Narizinho e Caçadas de Pedrinho, estas duas obras fundamentais na literatura brasileira que mesmo todo adulto deveria devorar. Este ato contínuo — a corrida à livraria logo após a notícia da paternidade — é reflexo de um dos maiores e mais irracionais medos que assombram a alma deste pai, além do pavor de aranhas saltadeiras: um dia, por qualquer infortúnio do destino, faltar dinheiro para comprar livros e, assim, ser condenado ao limbo inglório de ficar sem ter o que ler.

De modo que desde sempre, sempre que sobra um dinheirinho — e quando não sobra também — eu compro um livro aqui, outro ali, às vezes meia dúzia de uma vez, mas sempre dos bons (nada de “O Mínimo que você precisa saber para não um idiota”, ou quaisquer literatices dessa estirpe), e glória a Deus nas alturas se aquele livro raro à beça da clássica coleção Grandes Cientistas Sociais, da editora Ática, aparacer à venda por R$ 10,00 na Estante Virtual. O resultado disso é uma biblioteca da qual não posso dizer que não tenho muito orgulho, e na qual abundam Marx e Hegel — ou melhor, Engels, mas Hegel também –; Mariátegui; Nelson Werneck Sodré e outros ícones do pensamento democrático nacional; toda a coleção Cadernos do Povo Brasileiro; Tchekov, Gorki, Tolstoi e muito mais literatura russa; Gabriel García Márquez, Borges e Cortázar; Guimarães Rosa; uma prateleira inteira de Jorge Amado e duas de literatura portuguesa: a de cima com Eça e Camões, e a de baixo com Lobo Antunes, Gonçalo M. Tavares e Valter Hugo Mae (#ficaadica).

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O ‘papel de pai’ bem no centro da tormenta

huguinho-ba-editadaFoi há mais de quatro décadas, no ano de 1970 de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira da América Latina, que o jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano publicou sua obra capital, dedicada à narração da cruenta história de como este continente de todos os santos, e abandonado por todos eles, tornou-se a região das veias abertas, com seus recursos naturais e seus recursos humanos submetidos ainda hoje — ou sobretudo hoje — a uma sangria desatada e ininterrupta, “desde que os europeus do Renascimento se abalançaram pelo mar e fincaram os dentes em sua garganta”.

Pouco depois de seu lançamento no Uruguai, o livro “As Veias Abertas da América Latina” foi publicado também na Argentina, onde estivemos com o Huguinho para uma “semana sabática”, na semana passada, e logo chegou às livrarias de toda a chamada “América espanhola”, o que significa dizer quase todos os países que existem da península da Baixa Califórnia à Patagônia, menos alguns pouquíssimos, como o Brasil.

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Dar ao filho o mesmo nome do pai

hugosO que é, o que é? Junto com a pergunta, uma foto, e estava formada a adivinha enviada para o grupo da família no Whatsapp. A foto foi tirada na hora, com o celular da Priscila: mostrava eu sentado na mureta de um restaurante aqui de Penedo, tentando equilibrar meu filhote, então com uns seis meses de vida, sentado em minha cabeça, enquanto esperávamos o rango chegar. O que é, o que é? As respostas vieram em profusão, e até faziam sentido: “totem”, “tal pai, tal filho”, “eta vida boa”. Mas nenhuma foi a resposta certa. A resposta certa era “uma pilha de Hugos”!

Eu e Priscila sempre nos referimos ao Huguinho como Huguinho, desde muito antes dele nascer, desde que havia apenas a certeza de quem um dia ele iria chegar. Mas só quando o guri começava a crescer na barriga da mãe é que eu me dei conta da imensa pretensão que é dar ao filho o mesmo nome do pai. Isso sem falar no quanto soa antiquado nos dias de hoje batizar um menino com um ”Filho” ou um “Junior” no final. Por várias vezes me perguntei se era justo marcar para sempre não apenas seu RG, mas acima de tudo sua identidade — ou seja, o que lhe é característico, o que lhe é complexo, o que é dele e não se repete — com esta herança duvidosa que é carregar no próprio nome, no nome próprio, a identidade de alguém, mesmo que esse alguém seja seu pai.

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