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O Huguinho de Penedo e o Amarelinho da Cinelândia

huguinho-amarelinhoNa quinta-feira anterior ao dia dos pais nós arrumamos mala e cuia e botamos pés na estrada, assim resolvido na hora, rumo ao Rio de Janeiro. O Rio fica a 170 quilômetros daqui do nosso mato, e foram 170 quilômetros de olho no Huguinho, que vinha de três dias de febre, mas melhorando (a febre diminuindo e espaçando). O Mafuá ficou com uma moça com quem nunca tinha ficado. Quando manobramos o carro, depois de deixá-lo, em Resende, ele já tentava cruzar nas pernas da pobre. Ir ao Rio na correria, Huguinho doentinho no inverno, Mafuá tentando cruzar em quem aparece. Nada de novo no front.

Mas foi uma ida ao Rio muito especial. Fazia muito tempo que não entrávamos no apartamento da Priscila em Botafogo. Estava alugado há mais de um ano, e a pessoa há poucas semanas avisou que iria entregar, porque foi transferida pela empresa para outro canto. Chegamos na quinta à tarde, comemos uma bobagem em um dos muitos bares descoladinhos que pipocaram nas redondezas nos últimos anos, e no fim do dia eu fui para um compromisso na Associação Brasileira de Imprensa. Priscila e Huguinho ficaram de farra no apê. Ele estava melhor. Desde a manhã cedinho sem mais febre. Quando cheguei, lá pela nove da noite, apareceu um 37,2. Demos meia dose de dipirona, na certeza de que no outro dia já teria passado tudo.

Passou. Priscila deu plantão no site em que ela trabalha, eu corri para terminar uma matéria, para o mesmo site, depois Priscila saiu para uma reunião, depois almoço com a turma do site, de modo que ficaríamos só os Hugos por longas horas, sem a mamãe, o que não é lá muito comum, muito menos durante viagens a cidades grandes. Minha programação era ir levá-lo pra andar de metrô: pegar em Botafogo, descer na Cinelândia e ir a pé até ali pertinho, na Livraria Cultura do Cine Vitória, na rua Senador Dantas. Ele já tinha andado de metrô, mas dessa vez curtiu mais. Segurou sozinho, sentou-se sozinho, ficou com vergoinha das muitas pessoas que mexeram com ele.

Fomos na livraria. Ele se amarrou no enorme Dinossauro de madeira que decora a sessão de livros infantis. Subiu e desceu correndo as lindas rampas encarpetadas da loja, montou um caminhão de bombeiro com as peças desempacotadas que deixam na sessão que vende Lego, no segundo andar. Fiquei aborrecido porque ele cismou de escolher de presente (eu havia prometido um) um brinquedo pra lá de bobo, sem graça, mas colorido e caro — o que diz muito sobre o que a Livraria Cultura se tornou nos últimos tempos. Tentei convencê-lo a trocar por outra coisa, um livro novo, de preferência. Não teve jeito.

Depois de um bom tempo na Cultura, saí com ele sem saber direito pra onde ir. Passamos pelo Amarelinho da Cinelândia, o mítico bar da mítica praça onde tantos já se juntaram, lutaram, apanharam, gritaram, comoveram-se em nome de um país democrático, de uma vida digna, de uma realidade justa. Pedi um cadeirão e sentamo-nos, os Hugos. O garçom esquentou a comidinha dele, que eu levava comigo. Ele não comeu. Eu comi uma omelete e tomei dois chopes. Ali, com meu menininho na minha frente, brincando com aquele brinquedo tolo, pensando que eu jamais tinha pensando que um dia nos sentaríamos só eu e meu filho para almoçar no Amarelinho da Cinelândia, pensando nas lutas de tipo que ao longo da vida ele terá que travar. Paguei a conta e fomos de novo pegar o metrô.

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