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Reflexões sobre a paternidade

No outro post eu escrevi sobre como a chegada do Gael mudou em muito o meu dia a dia. Mas na verdade, a paternidade trouxe mudanças muito mais profundas e muitas incertezas. Antes do nascimento do Gael, eu tinha muitas certezas na vida, tinha certeza que tínhamos tomado a decisão certa em vir morar na Noruega, certeza das nossas prioridades. Certezas de que tínhamos uma vida muito tranquila. Mas tudo mudou no momento em que o Gael nasceu com aquele olhão arregalado.

Nos dias seguintes ao nascimento do Gael algumas coisas começaram a mudar, e as certezas de antes começaram a virar dúvidas. Ver uma vida nova na sua frente e saber que ela veio de você é um momento mágico e a reflexão seguinte um choque de “realidade”. Esse choque aconteceu aos poucos e veio em ondas. A primeira onda chegou no dia seguinte, estávamos no hotel do hospital quando a Carol começou a cantar “O Leãozinho” para o Gael. Esse momento me mostrou que eu não era mais o mesmo, porque eu senti uma nova conexão com o mundo e meus olhos ficaram muito marejados. Eu nunca fui de me emocionar desse jeito, digo, me emocionava, mas normalmente era uma coisa mais interna, mas naquele momento eu me senti extremamente exposto, como nunca na vida.

Em outros momentos eu me pegava pensando como vai ser legal quando o Gael for maior e a gente puder fazer algumas atividades juntos, como passear, pedalar por aí, etc. De uma forma geral eu sempre me peguei pensando nas coisas boas e divertidas. Porém, um outro dia eu recebi em uma dessas mensagens copiadas e coladas que me trouxe de volta para a realidade. A mensagem comentava sobre alguns acontecimentos e como era bom ver a polícia enterrando integrantes do MST. Antes do nascimento do Gael eu provavelmente iria achar um pouco sem noção, mas bola para frente e esperaria a próxima piada. Mas dessa vez não, eu fiquei olhando e pensando, como eu vou mostrar para o Gael que não é legal a polícia matar quem quer que seja. Óbvio que esse caso é bem extremo, mas e nas outras pequenas coisas, como transmitir meus valores para ele sem ser moralista? Como transmitir nossos valores sem impor nada? Como com as minhas incoerências e ambiguidades eu vou ser capaz de guiar ele pelo exemplo?

Todos esses questionamentos me trouxeram reflexões ainda maiores sobre a minha visão de mundo. Como eu de fato construí essas visões? Comecei a relativizar algumas coisas para ver se eram algo em que eu realmente acreditava ou se era alguma coisa que me foi “imposta” de algum jeito. Bom, a notícia boa dessas reflexões foi que, realmente, a maior parte do que acredito não me foi imposto. Isso me dá um pouco mais de tranquilidade porque assim eu percebo que pelo menos os meus valores mais fundamentais são verdadeiros para mim.

Em casa meus pais sempre tentaram não nos impor nada, tanto que apesar de sermos batizados, a primeira comunhão ficou à nossa escolha e eu preferi deixar de lado. O caminho das pedras está por aí, mas será que vou conseguir mostrar para o Gael que apesar das escolhas e do caminho que eu escolhi, existem uma infinidade de caminhos diferentes tão corretos quanto o que a gente escolheu para gente? Como mostrar dentre todas essas opções que alguns valores não podem ser esquecidos de nenhuma maneira?

Além do caso da mensagem que comentei anteriormente, uma coisa que eu percebi que realmente aumentou após a chegada do Gael, foi minha intolerância para piadas machistas, homofóbicas, racistas etc. Eu já vinha me questionando porque eu achava essas coisas meramente engraçadas. Mas com um filho para ensinar que se deve respeitar todas as pessoas idependente de qualquer coisa, como seria se eu falasse para ele respeitar todo mundo e ficasse rindo, por exemplo, de uma piada claramente machista. Não me entendam errado, eu ainda sou uma pessoa com muito bom humor, mas não consigo mais tolerar piadas que supostamente fazem rir a partir de uma característica de uma pessoa.

Enfim, a paternidade me mudou muito como disse antes não só o meu dia a dia, mas também meu senso de humor e minhas perspectivas em relação ao mundo. Espero que esteja apto a ensina-lo a fazer suas próprias escolhas.

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